Jeferson De exibe “Bróder” no Caium: “Cinema é feito com dinheiro público”

Por Hermes Ribeiro | hermes.bug@gmail.com

Na última quarta-feira, 28 de setembro, quem pensa em se aventurar pela carreira do cinema teve bons conselhos do diretor do Jeferson De. Às aparências, só um magrelo de óculos, como qualquer outro rapaz, querendo se dar bem no cenário audiovisual, produzindo as coisas que gosta e do jeito que bem imagina. Aliás, exibiu um filme, como gostaria que fosse, e com uma forma muito próxima ao que esperava dela. O evento foi gratuito e teve a pareceria do Cineclube Caium e do Sesc Ribeirão Preto.

Segundo o diretor,”Bróder” levou cinco anos para ser finalizado e poderia ser a oportunidade que mudaria sua trajetória profissional: “Eu sabia que teria uma única chance [para dar certo], então precisei chegar com os dois pés na porta”, disse ao responder sobre os altos investimentos em seu projeto. Afinal, o filme foi produzido pelas gigantes Columbia Pictures e Globo Filmes.

Já sobre o conteúdo de “Bróder”, apesar da temática suburbana, com roteiro próprio, Jeferson defende que não há nada de errado em não ser “panfletário”, isto é, não se exige um discurso político de esquerda para retratar a vida no bairro do Capão Redondo, segundo os olhos do protagonista Marcu (Caio Blat), como talvez sugere a luta de classes, ou o imaginário popular.

A temática parece mesmo impossível de ser abordada sem a presença de facções criminosas, ou da vida marginalizada de quem mora nas periferias. Tais circunstâncias seriam perfeitas para que o diretor metralhasse ideologias burguesas na vida, mas principalmente no destino, de moradores dos subúrbios.

No entanto, ele lembrou da influência de Fernando Meirelles, cujo longa “Cidade de Deus” esteve em listas de melhores obras de todos os tempos. E ainda completou: “Eu tive que acreditar em mim para pegar o edital. Cinema, no Brasil, é feito com dinheiro público. Se eu não pegasse, alguém ia pegar”, disse.

A plateia composta, em sua maioria, por jovens engajados em segmentos diversos, indagava os motivos do autor-diretor: se o protagonista branco era para contrastar com os outros que eram negros; se ele prestava tais e tais homenagens a um diretor e outro em determinadas cenas; se ele acreditava em outras possibilidades de ascensão ou satisfação social; se haveria outros projetos futuros, ou sobre os custos de produção; perguntavam muito e ele era generoso com as respostas.

Agora, idealizando seu novo projeto, com orçamento três vezes maior que “Bróder”, portanto de R$ 10 milhões, ele segue seu plano, deixando a dica para o pessoal do circuito alternativo: “Não adianta levar câmera para favela. Enquanto as pessoas não estudarem, não vão produzir alguma coisa boa, que tenha aceitação do público”.

Ele mesmo confessa que seu “termômetro”, para medir a ideia do longa metragem foi sua mãe, uma senhora já 62 anos com formação escolar incompleta do que hoje se chama ensino fundamental, mas a quem agradece imensamente pelas condições de ter podido ingressar na USP. Ele diz que as instituições públicas de ensino, “elites como as federais e estaduais” são a porta de entrada para o rol dos artistas diferenciados.

 



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