Artigo: A Batalha da XV

Batalha da XV completou um ano de existência em 2012

Por Vinícius Barros, Gestor do Pontão de Cultura Sibipiruna

 

 

No ano de 1868 foi edificada uma capela onde hoje se encontra a fonte luminosa da Praça XV de Novembro, no marco zero de Ribeirão Preto. Alguns anos depois, em 1905, a velha capela foi demolida e deu lugar à primeira fonte, mais simples que a atual, mas que já anunciava a riqueza dos tempos áureos do café. Já em 1919, depois de uma nova reforma, a praça se consolidava como um território voltado às elites, um belo jardim onde as famílias abastadas conviviam e se relacionavam.

Naquele tempo, início do século XX, Ribeirão Preto era uma cidade pequena, mas que se destacava nacionalmente por sua forte vocação econômica. No entanto, seus conflitos sociais internos já se revelavam como um notável sintoma de uma sociedade desequilibrada e originalmente desigual. A Praça XV foi palco de duras batalhas onde a intolerância com o outro buscou vencer o direito de coexistência, principalmente, entre brancos e negros. Não havia espaço para todos naquele simulacro da velha Europa.

Em uma dissertação de mestrado entitulada “(Re)Vivências Negras”, escrita pelo historiador e sociólogo Sérgio Luiz de Souza, é revelada, a partir de uma extensa pesquisa, a repressão sofrida pelas negras e negros que pela Praça XV passeavam no início do século XX. Comprovada por notícias de jornais da época e relatos orais, procede a informação de que as elites viam com maus olhos a presença de afro-descendentes e pessoas pobres em seu principal espaço de convívio. Era a segregação do território urbano baseado na hierarquia sócio-econômica e no racismo.

Porém, ao longo dos anos o espaço das elites ribeirãopretanas foi se deslocando para a zona sul, processo simultâneo ao crescimento da cidade. O centro se tornou popular e hoje atende principalmente as classes médias e baixas, antes rejeitadas. Novas ocupações hoje podem ser percebidas na Praça XV, que já não é mais o jardim francês da elite cafeeira. Apesar de ainda manter suas formas de segregação, a praça hoje é mais disponível ao povo e tem sido um espaço de articulação de movimentos artísticos e de contestação.

É na Praça XV que há um ano se realiza a famosa “Batalha da XV”, para quem não conhece, um evento quinzenal que tem como roteiro disputas de rimas improvisadas entre mc’s de Rap. Através da cultura e da união de seus adeptos, propõe-se a ocupação e a valorização da praça pública que, ironicamente, era no passado excludente aos ancestrais dos que hoje a ocupam. Organizada de forma coletiva e quase sem recursos, a “Batalha” tem promovido lazer e ativismo para os militantes do movimento Hip Hop da cidade e da região.

Exemplos de construções culturais coletivas como essa da “Batalha da XV” nos mostram que as opressões sempre podem ser vencidas e que não há relação de poder que sobreviva eternamente. Hoje o negro impõe a sua cultura em forma de batalha no espaço que outrora lhe foi negado. Talvez os envolvidos mais jovens nem saibam o peso de sua realização, uma verdadeira conquista histórica e que, além de significar vitalidade ao espaço urbano, ajuda a sufocar os ecos de um racismo ainda vivo.



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